Depoimentos/Textos

EXPOSIÇÃO FELICIDADE

Desde que recebi o convite para participar do 2º Quilt & Craft Show com o tema Felicidade, imaginei que a tarefa seria árdua, essencialmente em função do desafio de transformar algo tão subjetivo numa imagem que a partir do primeiro olhar evocasse esse sentimento no expectador. Superada essa primeira dificuldade pensei que do próprio tema derivaria certa uniformidade de expressão com formas, cores e texturas harmônicas que propiciassem sensações de conforto e bem-estar e, além disso, suscitasse no público percepções análogas provenientes de suas próprias memórias.
O que eu não considerei, porém, foi o óbvio: quando se trata de subjetividade humana e da complexa trama da qual é constituída, é impossível prever o estilo de cada um, o tipo de reação que deseja provocar e menos ainda qual imagem elegerá para representar seu cenário afetivo. E essa constatação resultou na necessidade de lidar com concepções bastante diversas das que eu imaginara no início e que, afinal, pertenciam à minha própria cadeia associativa.
A diversidade e a riqueza da alma humana mostraram sua face, forçando-me a garimpar a felicidade nos traços e nuances mais inesperados: em arestas pontiagudas e  contornos nebulosos, em tons agressivos e imagens inquietantes, em cavidades que evocavam fantasias primitivas. Foi difícil localizá-la nesses desvãos, posto que a todo momento ela insistia em me chamar para terrenos mais familiares nos quais podia ser facilmente identificada... Na cachoeira descendo por uma encosta, nas crianças empinando pipa, nos cachorros ao redor de seus donos, nas lembranças que uma viagem deixou, nos registros domésticos e acolhedores, em viagens que o universo literário propicia e até mesmo num arco-íris contra um céu tempestuoso. E ainda nas fascinantes equilibristas concentradas em manter a felicidade em suas mãos, a despeito dos revezes cotidianos.
Somado a tudo isso o prazer de evocar com linhas e texturas, no trabalho   em parceria com Vilma, a magia de contos que me enlevaram na infância.
Jornada finda resta o aprendizado de que a criatividade não tem mesmo limites e a arte pode ser expressa de múltiplas maneiras. Porém, o livre-arbítrio nos possibilita escolher com o que desejamos abastecer nosso mundo interno. Eu fico com Dostoievski: a beleza salvará o mundo.

Jaci Ferreira
Coordenadora do grupo Ciranda Bordadeira



----------------------------------------------------------------------



Jaci Ferreira/Vilma Simas

Capa do Trabalho





             O conceito inicial deste trabalho foi elaborado por Olinda (SC) e Vilma (SP). Contudo, em função das dificuldades que a distância impunha, Olinda optou por realizar seu bordado sozinha.

A concepção do projeto e o tempo disponível para sua execução eram incompatíveis com uma feitura individual. Foi então que embarquei nesta felicidade alheia e, aos poucos, ingressei na atmosfera por elas imaginada.
A tarefa – à primeira vista gigantesca – foi facilitada pela longa convivência com Vilma nas aulas em meu ateliê, possibilitando que entrássemos rapidamente em sintonia. Alguns ajustes foram realizados no esboço original para que a cria tivesse a nossa cara. Dando asas à imaginação, trouxemos à luz o universo mágico que permeia toda a infância e que representa, para nós, essa tal de Dona Felicidade.


----------------------------------------------------------------------

Adriana Lis Bellinello                                                                                            





Foi dado o tema para a nossa nova “empreitada”, a Felicidade. Quando se pronuncia esta palavra, achamos que sabemos o que é, o seu real significado, mas mesmo assim busquei no dicionário antes  de começar o meu trabalho.
Significado de felicidade: 1. Estado de quem é feliz;  2. Ventura; 3. Bem estar e contentamento; 4. Bom resultado e bom êxito.
Com essa informação, percebi que estar com os meus três filhos é o meu estado de felicidade. E aí dei início ao desenho dos meus pequenos em situações marcantes de suas infâncias. Ao principiá-lo, porém, comecei a lembrar de momentos que estavam esquecidos na minha mente e no meu coração. Períodos agradáveis da minha própria meninice que se assemelhavam com a infância deles. E com isso surgiram no bordado os animais, as plantas e o perfume de algumas delas, a bicicleta e o brasão de família.
Hoje os meus filhos já são crescidos. O Gustavo com 19 anos, Giovanna Lis com 15 anos, e Carolinna Lis com 13 anos. E posso dizer com muita felicidade que eles são o meu maior tesouro. E agradeço por tê-los em minha vida.



Agostinha Hashimoto/Jaci Ferreira




Agostinha recebeu o convite para participar, junto com o grupo Ciranda Bordadeira, do 2º Quilt & Craft Show com o tema Felicidade, em meio a um processo de luto.  Num esforço, procurou em sua memória uma imagem que pudesse traduzir esse sentimento e, dentre seus guardados, encontrou uma fotografia da entrada de sua chácara, recanto no qual desfrutou, com a família, de momentos verdadeiramente felizes.
Apesar do tempo exíguo e da situação adversa, se empenhou para transpor para o tecido as cores e texturas daquele espaço, talvez até como uma forma de se organizar internamente e alimentar a alma com registros afetivos significativos.
Nem tudo foi felicidade, porém. Neste ínterim, sobreveio mais uma doença em família. A necessidade de se dedicar ao cuidado deste ente querido demandou tanto que não sobrava tempo nem disponibilidade para prosseguir no trabalho. A angústia decorrente da necessidade de honrar o compromisso assumido e a absoluta incapacidade de mantê-lo paralisou-a durante dias. Foi quando, num telefonema entre nós, se reproduziu a experiência descrita por Clarice Lispector em um de seus contos intitulado Uma experiência no qual, em um trecho, ela diz:  “Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado”.  
Imbuída desta percepção, assumi o projeto e rematei os fios desta felicidade momentaneamente turvada pela tristeza. O que era um trabalho individual passou a ser criação conjunta. Vê-la assim, emoldurada, suavizou a dor de mais uma perda. E ao testemunhar a emoção de Agostinha, esta felicidade se tornou minha também.

----------------------------------------------------------------------


Ana Flávia Medina


A felicidade está no alívio da dor através da arte. Inspirada neste mote resolvi bordar o processo que uma amiga estava vivendo  lutando contra sua endometriose profunda. Na primeira vez que vi a pintura de Helô, que exorcizava sua dor e todos os medos por trás desta doença terrível, vislumbrei que aquela coragem de pintar suas entranhas era a expressão máxima de uma atitude de felicidade. Como passei pelas agruras da mesma doença, conheço na carne o poder de abalo moral desta patologia.
Acompanhando a luta de Helô para combater o mal pelo qual estava passando, resolvi me juntar a ela nesta batalha acreditando no real poder curativo da alma através da arte.
Surgiu então "Um Olhar Interior", uma construção através de linhas e texturas da visão interior de Helô Weber sobre seu corpo. O bordado será parte de seu acervo de obras sobre este momento tão especial quanto crítico de sua vida.


----------------------------------------------------------------------

Ana Silvia Loureiro                                                                                                    
                                                                                          
 



A Imagem: pessoas, momentos, lugares, palavras, gestos, cheiros, sabores, sons... Uma infinidade de possibilidades de bordar a Felicidade. A escolha pela imagem de uma árvore, em especial a Barriguda que tive a oportunidade de conhecer no estado de Goiás, representa aspectos marcantes do que me faz feliz na vida. Uma árvore imersa num cenário de cores do cerrado, cujo tronco apresenta a forma de uma barriga como se estivesse gestante e com seus galhos e flores delicadas que se projetam no espaço sugerindo movimento, como uma dança.
Tingimento do tecido: com o apoio de uma fotografia para pintar o tecido, tive a experiência de transportar-me através da memória para o momento em que a vi diante dos olhos e assim procurei reproduzir as diferentes nuances de cores que constituíam o seu cenário.
O bordado: o início de tudo ocorreu pelo tronco. Cercado de observação, cuidado e paciência era necessário variar o uso dos pontos para proporcionar o aspecto rugoso do mesmo, além de mesclar as cores respeitando as variações existentes. No começo, como surgiam apenas linhas era difícil ter a noção do todo e saber se estava alcançando meu objetivo. Passaram-se dias para que esse tronco se formasse de fato... Depois vieram as raízes, galhos e flores. E por último veio o preenchimento do centro do tronco, sua “barriga”, onde a correntinha através de um movimento lento, delicado e em espiral preencheu e finalizou a imagem de minha Felicidade. A Barriguda, com sua presença de tirar o fôlego...

---------------------------------------------------------------------

Bia Coutinho                                                                                                                                                                                                                        


A felicidade pode acontecer de muitas maneiras, a minha veio misturada com ansiedade, insegurança e alguma raiva. Ansiedade porque via o tempo passar e o bordado não render, insegurança porque via a obra das outras talentosas bordadeiras e comparava com a minha, e raiva porque não podia me dedicar integralmente ao meu amado bordado, minha vida real não permite. Tudo, porém, é ação e reação, no final percebi que a minha felicidade está aí, em projetar e realizar a beleza através das linhas. 
E quando tudo ficou pronto, isto é, quando o prazo acabou e dei por terminado o trabalho, vi todas as obras reunidas e emolduradas. Cada uma delas tem sua beleza própria e um pouco da personalidade da sua autora. A minha também.
Não era a mais bonita, nem a mais original, nem a mais elaborada, mas ela tem a sua graça, e tem um pouco de mim, e todas têm um pouco da nossa mentora.
Como sempre, o conjunto tem uma beleza gigantesca, em cada um se vê o melhor de sua autora.
Foi mesmo uma felicidade!

                 --------------------------------------------------------------------

Chiara Viscomi    


                       


                                                                   
Eu tenho sete dias na semana. Ela tem renda e prosa. Eu tenho lembranças de um tempo esquecido. Ela tem caprichos. Eu tenho anseios de agora. Ela tem segredos de outrora. Eu fui feita a máquina. Ela foi feita a mão. Eu tenho liberdade. Ela tem sensibilidade. Eu tenho duvidas. Ela tem vivência.

Ela, essa tal felicidade… que é perseguida incessantemente, está nas pequenas coisas do dia-dia feminino que virou memória; memória que desejava chegar, memória que deseja agora voltar. Entre linhas, agulhas, metais e outros materiais foi possível voltar ao passado, imaginar o cotidiano de mulheres comuns que sonhavam em conquistar e querer um futuro regresso. 


--------------------------------------------------------------------

Daniella Michelin



Missão: Bordar a Felicidade.  Uma palavra tão comum, mas tão difícil de definir, seja com palavras ou com agulhas e linhas. Criar o risco do bordado consumiu o mesmo tempo e esforço que o bordar em si. Foi um exercicio que me fez examinar o mundo ao meu redor e considerar o que é a felicidade universal.   Identifiquei os elementos da minha vida que me trazem alegria: a natureza, os animais, a água corrente, meu amor, minha família, o brilho do sol, o reflexo da lua, a esperança de um filho, o amor incondicional da minha cadela Sushi, montanhas que escondem o amanhã, e o ar que, a cada segundo, me lembra de que sou parte do todo, inspirando e expirando, aqui e agora. Concluí que a felicidade não é um estado de espírito, mas sim uma escolha. E bordei num ato de desafio. Bordei intensamente, ponto a ponto a minha escolha pela felicidade, apesar da tristeza que, se permitirmos, pode mudar as matizes da nossa vida e nos impedir de ver as linhas como elas realmente são...coloridas possibilidades.

    ----------------------------------------------------------------------

Fulvia Cristiano                                                                                                  




Manter viva a nossa Ciranda Bordadeira, com esse trabalho, foi poder me expressar mais uma vez por linhas, pontos, cores e texturas, transformando uma ideia em algo (acho eu) belo. Quando soube qual era o tema – Felicidade –, me senti bastante desafiada. Afinal, o que é felicidade?
A escolha da Colombina foi um “presente” ao meu marido, que gosta da figura do Arlequim. Por que não fazer a mulher apaixonada por Arlequim, como eu apaixonada por ele? E, como eu ADORO cores, nada melhor que a Colombina para poder usar todas e quantas eu quisesse – isso sim me faz feliz! Bem como me fez feliz cada troca de experiências com as “artistas da felicidade” dessa Ciranda: ouvir opiniões, compartilhar receios e conquistas, ver cada trabalho – e cada felicidade – se concretizando em uma coletânea de obras de arte! Trabalho pronto, espero que desperte nos observadores o sentimento tão repetido nesse texto: felicidade!

             ----------------------------------------------------------------------

Jaqueline Leff



Como representar a felicidade em bordado?
Foi tentando encontrar este significado que me questionei: quando me sinto feliz? Porque? Onde? Com quem? A partir deste mergulho interior encontrei minha resposta: me sinto feliz junto a minha família. Pronto. Tinha escolhido meu tema.
Marco, meu companheiro e amigo de todas as horas, sempre ao meu lado. Clara, a mais velha. Com ela aprendi a ser mãe. Ana, a mais nova. Nosso anjinho, sempre alegre.
Com eles me sinto completa. Compreendida. Amada. Ao lado deles eu posso dar o melhor de mim: o amor incondicional.
Fiz nosso retrato monocromático como um “desenho a lápis”, de uma forma mais realista. O colorido, este, nós vamos pincelando juntos, no dia-a-dia.


Minha família tem muitos pontos. Estes fazem sua textura. Também tem muitos nós. Mas acima de tudo, minha família tem muitos laços. Laços de amor.


        ----------------------------------------------------------------------


Lucia Higuchi




Meu trabalho como artista plástica é antigo, sou arquiteta de formação e o desenho sempre esteve presente no meu dia a dia. Em meus trabalhos busco traduzir experiências vividas, cenas do cotidiano que marcaram meu olhar seja em giz pastel, batik, feltragem ou, mais recentemente, com o bordado. Para participar da mostra de Curitiba escolhi uma cena que presenciei em Miami no ano de 2011 minutos antes de uma tempestade. Para mim foi uma grande felicidade  presenciar um momento delicado e ao mesmo tempo brutal da natureza; até as aves vieram ao chão aguardando o desenlace da tormenta. A experiência de representá-lo com os fios das linhas e a agulha foi incrível, representar ponto a ponto as cores e a luz, foi um ensinamento de paciência, perseverança e observação. Este é o meu primeiro trabalho nesta técnica e minha orientadora Jaci foi pacientemente me encaminhando. Estou muito satisfeita com o resultado e estou pronta para novos desafios na arte do bordado.

    ----------------------------------------------------------------------

Lucia Schwery


Bordar é um ato mecânico, mas requer, ao mesmo tempo, sensibilidade para misturar cores, fios pontos e texturas.
O estilo naïf da pintora Pilar Sala identifica-se muito com o tipo de bordado que adoro fazer: tudo muito pequeno, repleto de detalhes.
Desta vez o desafio maior foi selecionar os pontos para a execução das arvores, pois a ideia foi fazer uma diferente da outra.
Acho que, em relação ao jardim, milhares de nós com linhas multicoloridas resultaram num efeito bastante interessante.
Recorri a outros materiais, tais como fitas de seda, tecidos, organza, etc...com a intenção de obter diferentes resultados.
Minha felicidade foi conseguir atingir o objetivo a que me propus.
----------------------------------------------------------------------


Luciana Bravo


Para mim, ser feliz é me sentir plena, completa, é conviver com todas as imperfeições que a vida nos apresenta e, ainda assim, estar em paz com o mundo e comigo mesma.
Ao saber que o meu próximo trabalho seria sobre o tema Felicidade, pensei que bordar, por si só, já é viver um momento de felicidade. É traçar, trançar e trazer à vida algo que, até então, estava apenas na minha imaginação. Devagar, ponto por ponto, com muito prazer. É como gestar, dar à luz e alimentar um novo rebento. Daí para achar uma imagem que traduzisse este sentimento foi muito simples: a maternidade e o ato de amamentar, sem dúvida alguma!
Desde então, não parei de traçar paralelos entre a arte de bordar e a de ser mãe.   Ser capaz de unir todas as texturas, cores, sombras, volumes, perspectivas e profundidade e dar vida a algo mágico. Muito mais do que dominar técnicas, é acima de tudo um ato de amor.


----------------------------------------------------------------------

Luciana Spina


Olhar a calmaria do horizonte, numa bela montanha com vários tons de verdes e flores, crianças brincando, o mar azul e um imenso céu, esta foi a maneira que encontrei para expressar minha felicidade.
Felicidade maior ainda é bordar. Embora com pouca idade um dos maiores prazeres que encontrei no último ano foi aprender que cada ponto dado, o encontro das linhas e as curvas de cada desenho se transformam em delicados trabalhos.

Literalmente fiquei FELIZ com o resultado deste trabalho e compartilhei esta felicidade com minha família que me acompanhou a cada ponto finalizado.

----------------------------------------------------------------------


Maria Lúcia Ciampolini






A felicidade vibra nas coisas mais simples; no sorriso dos filhos, numa flor desabrochando, em um abraço de verdade, na inocência de um bebê, em uma música que cala fundo em nossas almas amaciando nosso coração, acendendo o riso e convidando a alma pra se divertir.

Essas pequenas artes bordadas com fios de luz no tecido tem sido uma experiência incrível.

É encantador mergulhar neste universo das linhas, pontos e cores, tecendo artes dia a dia e superar dificuldades internas com fios coloridos e com o convívio de pessoas fantásticas é maravilhoso!


            ----------------------------------------------------------------------

Maria Alice Teixeira Soares




Bastante difícil e subjetivo interpretar a felicidade por meio de linhas, agulhas e imaginação, mas entre conversas e risadas de todas nós bordadeiras reunidas, surgiu de dentro de mim um jardim secreto e nele, a lua e seus miasmas lunares, o sol e seus ventos solares e a constelação inteirinha das Plêiades em profusão de estrelas tão distantes. Como dizia Antonio Machado, “caminante no hay camino, se hace el camino al andar”. E lá vou eu navegando no caudaloso das águas deste rio...

Sem perceber, aqui está resumida, apenas apontada, a minha Feliz Idade. Marco de onde me encontro hoje em dia, não deixando de lado – claro – os fugazes e momentâneos períodos de felicidade vida afora...

 ----------------------------------------------------------------------

Mieko Makino                                                                                                                                                         


Foi um grande desafio criar um trabalho envolvendo o tema “Felicidade” em um espaço de tempo definido. Durante este processo relembrei de muitos momentos bons, engraçados e até tristes da minha vida. Momentos da minha infância, da infância dos meus filhos e da vida de meus pais, tudo relacionado aos que fizeram e fazem parte da minha vida.
Usei pontos simples e fáceis, sem complicação, pois assim cada cena bordada aparecia no tecido com prazer e leveza.
Procurei através deste trabalho transmitir uma sensação alegre, descontraída e divertida do que considero felicidade e a simplicidade dos momentos em que ela pode ser encontrada.

----------------------------------------------------------------------


Olinda Evangelista                                                                                            


A proposta de bordar “felicidade”, apresentada pela Jaci ao nosso grupo – Ciranda Bordadeira – caiu sobre mim como um desafio irrealizável. Menos pelo que significaria de bordado ou tempo, mais pelo sentido a ser atribuído à palavra por meio do bordado. Quanto mais pensava, menos via uma imagem bordável. Vilma e eu falamos muito sobre o tema... E rimos muito também em razão das conclusões a que íamos chegando sobre a felicidade e a vida... Ora pensávamos sobre a felicidade no sentido positivo: o que ela era. Ora a pensávamos em seu sentido negativo: o que ela não era. Ideias muito estapafúrdias nos vieram à mente. Demoramos a achar o “ponto certo” do bordado. Íamos fazê-lo juntas. Por impedimentos meus, fizemos separadas. Vilma e Jaci juntaram seus pontos e linhas e eu bordei o meu... O lindo dessa história foi que as nossas felicidades se encontraram, pois, em nossos panos e com nossos fios, bordamos as nossas pequenas felicidades...      

    ----------------------------------------------------------------------
Regina Melo



Ao iniciar o trabalho, veio a minha mente algo que me faz feliz e uma das coisas é observar. Observar o que está ao meu redor, parar em um lugar movimentado como à Avenida Paulista, um shopping ou um parque. Ver cada um com olhar diferente, pois o movimento do lugar e das pessoas que estão neles é diferente, mas cada um tem a sua energia: é a vida passando diante dos nossos olhos, às vezes passamos no mesmo lugar no mesmo dia ou minutos depois e já não é igual, algo se modificou.  
Assim foi com o meu bordado e tudo que estava à volta dele: as exigências, a professora, a curadoria, a responsabilidade, as colegas de aula, a minha família, eu e as minhas observações.
E cada uma das citações que fiz agora, faz aflorar os sentimentos de cada dia, as surpresas  boas e ruins, as alegrias e as decepções.

Ao chegar ao final e ver minha obra concluída, os detalhes, as linhas e suas cores, o tema escolhido e a clareza da sua beleza, me fez feliz. Ao observar delicadamente dentro de nós, a felicidade está nas coisas mais simples da vida. Mas quando há algo que nos encanta, ficar contemplando-a é a felicidade.

----------------------------------------------------------------------


Rosângela Barbosa


Entre outras felicidades que tenho, escolhi essa imagem para participar da exposição em Curitiba porque representa a felicidade que encontro na elaboração de um bordado, desde o momento do desenho, passando pela pintura do tecido e, por fim, bordando e experimentando técnicas e pontos. Ela representa as asas da imaginação.
Foi inspirada em Little Wing (1967), música de Jimi Hendrix, onde “Ela” passeia pelo circo da mente entre borboletas, vaga lumes e contos de fadas voando com sua pequena asa. A minha Little Wing passeia pelo mundo das possibilidades entre os tecidos e as linhas.
Não podendo ser diferente, foi um trabalho permeado pela felicidade de se fazer o que se gosta.

                     ---------------------------------------------------------------

Suely Galli

1. A equilibrista                        




Desenho de criação própria com o objetivo de traduzir “felicidade” no universo que mista o fantástico e o realista, Equilibrista retrata a busca da realização de sonhos, alimentados pelos desejos. Encontra e lança de dentro de si, o fio por onde percorre equilibrando-se, revelando de onde vêm as atitudes, o caminho e as respostas.
A composição de desenho, bordado, intervenção de tecido aquarelado e instalação da barra de cobre, o trabalho mostra seu caráter experimentalista, associando criação e pesquisa na arte em tecido, vivência que consolida nossa busca e necessidade da arte como incitadora do novo, do diferente e ideal. A arte desmaquiniza e relembra o homem sobre sua humanidade.


2. Malabaris

Desenho de criação própria com o objetivo de retratar “felicidade” num universo fantástico e cenário da realidade urbana atual, com seus quase totais impedimentos de se ser feliz. A personagem faz, com os elementos que possui dentro de si, construídos das experiências cotidianas, o malabarismo com as possibilidades de posicionar, no centro e acima das próprias ideias, a própria felicidade.
Desenhar, aquarelar e bordar Malabaris nos fez também malabarista da arte em tecido, experimento que monopolizou-nos a inspiração. Com Malabaris vagamos entre alegria e dor, esperança e descrença; brincamos com letras e palavras: paixão predileta; testamos materiais e texturas, furamos sangrando o desorientado dedo indicador; viramo-nos ao avesso e a encontramos lá: a felicidade!
----------------------------------------------------------------------


Suiang Guerreiro


As palavras nem sempre conseguem traduzir com fidelidade esse estado de espírito pra lá de gostoso. Mas os motivos que me deixam feliz costumam ser os mais simples possíveis. Um sorriso, uma flor, uma conversa, um encontro com uma amiga, uma comida diferente, tudo isso me leva à felicidade.
Por isso decidi levar ao linho e às agulhas minha felicidade na leitura de livros. Eles me levam a épocas e lugares distantes, me fazem íntima de personagens e autores, e me proporcionam momentos de puro êxtase. É impressionante como a imaginação e a linguagem podem me surpreender.
Bordar essa minha felicidade foi um exercício interessante – na busca de imagens, de pontos que as completassem e, principalmente, na procura pela linha dourada (uma epopeia!).
O grupo Ciranda Bordadeira, composto por mulheres tão distintas, está me proporcionando uma vivência rica e diversificada, e por isso gratificante para meu longo aprendizado na arte de bordar.



----------------------------------------------------------------------

Talita Ribeiro



Comecei este trabalho pela pintura, na esperança de que ela me inspirasse. “Joguei” umas pinceladas no ar para que a tinta caísse aleatoriamente, quase que num jogo de azar: e deu azar! Não gostei da combinação de cores que fiz. Mas ela estava feita e agora eu teria que aprender a amá-la.
Briguei com meu trabalho por diversos dias, sem saber por onde começar. Então, voltando à ideia original, resolvi obedecer aos caminhos da tinta e caseei à volta da área verde e da lilás. Gostei do resultado. Ficaram áreas em destaque.
Aos poucos foram surgindo “vontades” de bordar aqui com tal ponto, ali com outro, até chegar num último problema: o linho que usei não tinha a medida exigida. Caseá-lo num outro tecido foi a solução encontrada.
Por que FELICIDADE? Porque, como sempre, o bordado nos traz metáforas da própria vida, e o quê é a vida feliz senão abraçar o que ela nos apresenta, viver a situação da melhor forma possível e gostar do que se experimentou?
----------------------------------------------------------------------
                            
Vera Simonetti


            Que momentos felizes eu poderia colocar no tecido? Entre tantos, quais os preferidos? Escolher já seria uma tarefa prazerosa. Só relembrar as cenas e os cenários de momentos felizes, os sentimentos, os cheiros, sons, cores, as pessoas, os momentos de grandes e pequenas felicidades, que coisa boa!
Um cenário natural sempre me faz olhar a vida com mais gosto. Se volto a um lugar como esse, quero ver como aquela árvore está, espero ansiosa por aquele campo de lírios que começou a florir na época certa, em que lugar mesmo vi a trepadeira amarela? E a mini-orquídea naquele tronco de árvore, será que resistiu ao tempo?
Estar nesses lugares com pessoas queridas, nem se fale. Andar na beira do rio com as crianças e suas vozes deliciosas, deixar a pele sentir o sol, dar um beijo na pessoa amada, parar pra dar um mergulho no laguinho da curva do rio, descansar sob as árvores... Bordar/tecer esta felicidade foi uma felicidade, também.
----------------------------------------------------------------------


EXPOSIÇÃO BORDANDO OS SETE - 2012



Adriana Lis Bellinello


Quando fui convidada a participar do grupo Bordando os Sete fiquei muito feliz, pois me senti uma pessoa importante e que a minha querida professora Jaci confiava em minha capacidade de participar deste projeto. Depois caí na realidade e comecei a ficar angustiada. O temor começou em relação à escolha do artista, em seguida se estendeu ao tipo do tecido e as quais seriam as cores de fundo e, afinal, influenciou até mesmo o tipo de linha a ser utilizada no bordado. Em alguns momentos, com o término do prazo se aproximando, beirei o desespero.
A despeito de todas as incertezas, contudo, o bordado foi criando vida. E com ele, aos poucos, se originava uma família unida, em que cada uma dava palpite nos trabalhos alheios e acatávamos as sugestões de bom grado. Este trabalho foi o primeiro de uma série de muitos e me sinto lisonjeada por participar de um grupo coeso, alegre e com um objetivo comum, de mostrar quão belo é o bordado e quão bonita é a união de pessoas que se ligaram por um fio de linha, mas souberam, com ele, constituir uma forte trama, que originou o grupo Ciranda Bordadeira.

----------------------------------------------------------------------
                                                                                                                       Agostinha Hashimoto   
                                                                           

Bordar. Para mim é poder retornar às origens. O contato com as linhas, tecidos e agulha acionam como que uma máquina do tempo, que transporta meu coração para a casa de minha avó paterna. Lá, na sala principal de uma casa rural, cercada por cafezais e canaviais, se reuniam as grandes mulheres de minha infância – mãe, avó, tias. Da magia de suas mãos surgiam bordaduras maravilhosas aos meus olhos de criança. Pássaros encantados, paisagens bucólicas, flores imaculadas enfeitando roupinhas de batizado do mais novo bebê da família ou apenas uma simples frase para enfeitar uma parede e garantir que “Deus protege esta casa”.

Meu contato com o bordado, hoje, quando a última dessas “grandes mulheres” – minha mãe – acaba de partir, tem me ajudado a unir os fios do presente e do passado na busca de uma tessitura para o aconchego perdido. E as mulheres solidárias com quem compartilhei este projeto para a exposição Bordando os Sete, contribuíram generosamente para este meu processo.


                   ----------------------------------------------------------------------

 Ana Flávia Medina


Bordar para mim foi uma revelação. Quando comecei, há alguns meses atrás, jamais pensei que algo profundo se revelaria em mim.
O domínio da luz e da sombra eram coisas mágicas inacessíveis para mim. Por muito tempo me contentei em editar imagens que estavam criadas, dando asas à minha imaginação e senso estético.
Qual não foi a minha surpresa quando resolvi bordar uma figura de um Chef no caderno "Receitas do Coração" que fiz de presente para o meu filho. O tal Chef tinha umas dobrinhas, a imagem tinha movimento e era uma gravura nunca pensada para bordado. Neste momento de desafio comecei a dominar as façanhas de dar vida àquele pedaço de linho "mal" desenhado por mim mesma a lápis. Ao fim da obra o sentimento de "eu posso" foi total!
Chamada para participar do novo desafio de bordar uma tela de um pintor famoso, não tive dúvida. Adoro a obra de Van Gogh, posso dizer que é o meu favorito entre os impressionistas.
Bordar o "Quarto" dele foi uma espécie de imersão na intimidade do pintor, para um fã isso não tem preço. Escolhi com cuidado a textura da roupa de cama, as imagens dos quadros na parede, a perfumaria que estava em sua mesa de toalete, ou seja, tentei reproduzir com cuidado e carinho aquele espaço que acolheu uma figura tão genial e ao mesmo tempo tão conturbada. Foi como uma viagem ao interior de sua alma.

No momento em que entreguei o bordado me senti órfã.  E agora qual será o próximo mergulho promovido pelas linhas e agulha?


                  ----------------------------------------------------------------------

Ana Silvia Loureiro




A exposição Bordando os Sete surgiu como um desafio, afinal só havia concluído um trabalho até o momento e os que estavam em andamento sempre me faziam solicitar muito a orientação da professora. Assim que aceitei participar os sentimentos começaram a brotar. Friozinho na barriga, euforia, ansiedade... E uma pergunta interior: como faço uso de tudo o que aprendi até agora? Não sei escolher os pontos, as cores...

O início foi difícil. Mão dura, pontos que não me agradavam e um bordar e desmanchar sem fim. Fiquei tensa. Cheguei a pensar em desistir. Foi então que lembrei das oficinas e naturalmente me transportei para aquele clima de conversas e convivência tão agradáveis e essenciais. Senti-me acompanhada. E o bordado começou a fluir... Fui adquirindo confiança, me emocionando por encontrar as soluções para o bordado e desejando muito vê-lo finalizado.
Hoje, com o trabalho concluído, olho para ele e sinto-o vivo.
Sou imensamente grata por ter vivido esse aprendizado e conhecido pessoas lindas no caminho.

                  ----------------------------------------------------------------------


Bia Coutinho

Minha história com o bordado é, no mínimo, diferente. Aprendi a bordar muito menina, com cinco ou seis anos, com minha avó, que me dava paninhos, que viravam enxoval de boneca, para bordar motivos bem singelos e coloridos. Lembro que era uma atividade que me cativava e aqueles paninhos me acompanharam na infância, enquanto brinquei de boneca, o que foi por muito tempo. Minha avó infelizmente não durou tanto, morreu quando eu estava com nove anos e nunca mais bordei. Nunca mais até ver um bordado da Jaci, tempos atrás...

Então tudo recomeçou e junto veio o relacionamento com uma porção de gente de alma diferente e as almas são sempre reveladas nos pontos mais bonitos, nas idéias que se expõe nos bordados que aparecem em simples paninhos e que bem poderiam ser enxoval de boneca.
Participar dessa exposição com eméritas bordadeiras foi mais que uma honra, foi ter de novo seis anos e aprender uma coisa mais bonita: que criar beleza faz o espírito progredir, produz felicidade.
Então foi isso, fui mais feliz.
     
       ----------------------------------------------------------------
                                                                                                                  Chiara Viscomi

Há quem me chame de velha por bordar, há quem não entenda as razões pelas quais faço isso, há quem não dê valor a estes trabalhos, há quem apenas veja, mas não enxergue sua essência...
Nos dias de hoje, bordar já não é mais uma obrigação das mulheres ou uma disciplina escolar. Bordar é um dom que herdei das mãos magras e vividas de queridas mulheres que deram graça às suas vidas com flores de delicados pontos e barrados de capricho. Este dom ultrapassa o manuseio dos tecidos e das linhas, ele proporciona a construção de idéias, o entendimento de sentimentos, a fluidez da imaginação, o encontro de mulheres diversas despidas de qualquer forma de julgamento, a experiência, a superação.
Um trabalho introspectivo que faz parte de um todo que se dissipa no mistério do seu sentimento.

         ----------------------------------------------------------------

Daniella Michelin                                                                                          

Quem mexeu no meu vaso?                                                                                         O bordar da obra de Matisse, Interieur rouge, nature morte sur table bleue (Interior vermelho, natureza morta sobre mesa azul) foi um processo de descobrimento. Ao transformar aquelas imagens de cores agressivas e traços infantis em uma mistura de panos, fitas e linhas, embrenhei-me nas sutilezas da obra e descobri, com algum espanto, que o que à primeira vista parece uma pintura feita rapidamente de forma displicente é uma ciência exata e precisa.  
Como um móbile, que apesar de seus componentes de formas incongruentes, mantém-se em perfeito equilíbrio flutuando no ar, as formas de Matisse coexistem em sua obra em perfeita harmonia. A dança que se realiza entre o retângulo da janela, o oval da mesa, o esguio do vaso e o círculo do medalhão é perfeita.  A casualidade de emprego de cada um desses objetos é pura ilusão. Experimente cobrir com as mãos qualquer um deles. Comece pelo menos óbvio: o medalhão. Perceba a falta que ele faz, o vazio que sua ausência cria. Faça o mesmo para os demais. Viu? Sentiu?  E isso não vale só para as formas. Minhas linhas pretas estavam praticamente intocadas antes de eu começar esse bordado. Com a exceção de pequenas pupilas, eu nunca tivera a ousadia de empregar e muito menos “carregar” a mão nessa cor tão...tão absoluta. E o que seria da composição sem o preto? E sem o vermelho intenso, o amarelo-gema e as várias tonalidades de azul respingadas de branco? Tudo interage, tudo compõe, tudo precisa estar. É inevitável.
Essa exatidão de formas, cores e disposição levou-me a batizar meu bordado de Qui a bougé mon vase?, em português, Quem mexeu no meu vaso?. O vaso azul e branco é o elemento do bordado que mais se distancia, em termos de formato e posição do original a óleo. Tendo sentido ao longo do trabalho o nível de precisão empregado por Matisse ao compor sua pintura, tive a impressão que o mesmo teria me censurado por interferir no equilíbrio perfeito dos elementos da sua obra. Qui a bougé mon vase? seria uma frase vinda do próprio pintor, dirigida a mim, a bordadeira. Não tive que pensar para desenvolvê-la, ela brotou naturalmente. Considerei escrevê-la em ponto atrás, no próprio bordado, para dar um toque de humor à minha obra, mas acho que isso levaria a outras frases de censura “vindas” do mestre.
Também tive muito pouco a dizer no que diz respeito ao material empregado na confecção do bordado. A cor, a textura, a largura e o comprimento dos traços definiram o tipo de material, a tonalidade das fitas e linhas e os pontos empregados. Um exemplo foi a folhagem vista através da janela amarela. A paisagem me pedia fitas. “Mas eu nunca bordei com fitas!”, eu replicava.  “Mas nós somos fitas!”, elas insistiam, e por meio de fitas elas se concretizaram no meu pano vermelho. E nessa contínua interação com a obra do mestre, analisando suas entranhas e seus detalhes, desvendando o material que cada traço, cada forma e cada ponto de cor precisava para se materializar no meu trabalho, eu fui penetrando na intimidade da obra, desvendando sua perfeição.  
Por meio desse esforço, descobri uma ciência onde só esperava encontrar sentimento e espontaneidade e renovei minha admiração e apreço por esse artista tão maravilhoso e surpreendente. 


         ----------------------------------------------------------------
                                                                                                                   Flavia Herriges                                                                                              

  
Quando minha fofíssima professora Jaci me convidou para participar de uma exposição de bordados, fiquei muito receosa, mas, ao mesmo tempo, as idéias começaram a surgir na minha cabeça.
Jaci borda como uma fada e iria participar da exposição, também. Neste momento um frio na barriga apareceu. Falei para ela que poderia tentar, mas queria muito a sincera opinião sobre meu bordado. Quem conhece a Jaci, sabe que ela iria me apoiar, portanto, tinha que contar, também, com o meu bom senso do qual fazia parte minha família.
A partir daí, vivi outro impasse: que obra escolheria...
Neste momento, minha filha Marina entrou com a sua experiência como designer e seu conhecimento em artes para me ajudar a escolher uma obra em que a releitura seria mais fácil de bordar, pois afinal tenho só um ano no mundo dos bordados. Pesquisamos bastante e chegamos à escolha de Djanira, porque, além das obras serem belas, me trouxeram lembranças da minha infância e de viagens.
Fiquei feliz com o resultado. 

                ----------------------------------------------------------------

Fulvia Cristiano


Descobrir o gosto pelo bordado foi fácil! Já adivinhar que eu tinha talento para a coisa e que, com apenas um ano me dedicando a este prazer, eu poderia participar de uma exposição com outras bordadeiras tão talentosas... Esse foi um processo repleto de felicidade, aprendizado e, realmente, de descobertas! As linhas me amarraram e os panos me envolveram – às vezes literalmente! As tardes de aulas/companheirismo/risadas acordaram em mim sentimentos que estavam de lado (à força) pelo corre-corre da vida, que nos exige cada vez mais praticidade e lógica.
Participar dessa exposição me trouxe de volta as cores, as curvas, as texturas, a dimensionalidade e, por que não? as devidas proporções! Saber que o prazer é proporcional ao compromisso que a gente assume com o que gosta e que a recompensa de ver um trabalho em conjunto é proporcional à responsabilidade que a gente assume com nossos amigos.
Talvez seja por isso, e mais um tanto, que batizei minha releitura de Monet com o nome de Felicidade em Cores. Tanto a pintora, retratada no bordado, como eu, bordando seu dia ao sol, sabemos que as cores e a arte preenchem nossa experiência de vida com esse sentimento de felicidade.
Só posso agradecer a Jaci que, com seu dom e paciência, me apresentou a esse maravilhoso mundo do bordado!
                
                    ----------------------------------------------------------------

Jaci Ferreira

Registros de minha infância                                                                                  

Fui apresentada ao Mestre Militão por uma aluna, cerca de dois anos atrás. A explosão de cores me cativou à primeira vista e, ocasionalmente, a singeleza de seus traços ressurgia em minha memória instigando um desejo de transpô-la para o tecido. Em função da precariedade de minha visão, contudo, renunciava ao intento me julgando incapaz de realizá-lo. Como poderia bordar a riqueza de detalhes quase imperceptíveis que, entretanto, sempre presentes em sua obra, se tornaram signos de sua pessoalidade, permitindo distingui-lo dos demais representantes da arte naïf?
Entretanto, de acordo com Riobaldo, os inesperados da vida nos trazem o que no fundo desejávamos mesmo antes de saber. (Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, 1956). Começando a organizar a mostra Bordando os Sete, Militão foi o primeiro a ser incluído na lista dos homenageados. Admiração compartilhada, aliás, com mais quatro integrantes de nosso grupo.
Mesmo temerosa e ciente de minhas limitações, escolhi a pintura Brincadeira de roda por conter algumas cenas evocativas do meu imaginário afetivo infantil. Acreditei que a familiaridade amenizaria o desafio.  E assim foi... Ao aquarelar o terreiro relembrando o espaço de outrora onde pulava corda, aspirei novamente o cheiro da poeira no ar. Pincelei as casas, o céu e as plantações com os tons da criancice e das ruas da vila onde nasci. E com as mãos guiadas pelas lembranças de menina escolhi carinhosamente as linhas, cores e texturas para registrar a obra deste admirável Mestre que transpõe para as telas as belezas que o habitam, seus afetos mais significativos e seu amor pela natureza.






                 ----------------------------------------------------------------

Lucia Schwery

                     O convite para participar deste recém formado grupo, Ciranda Bordadeira, é um privilégio!!!
                Van Gogh foi minha opção com a tela Blossoming Almond Tree, com claras influências japonesas, pintado em Saint Rémy, em 1890.
                A satisfação e o desafio de, aos poucos, poder apresentar em bordado o trabalho de um mestre e, com minha releitura, poder expressá-lo foi, sem dúvida, algo muito gratificante!
             A busca por fios, texturas, cores e pelos pontos adequados mostrou-se uma experiência nova que me levou a muitos exercícios e combinações até a decisão final.
                A oportunidade de acompanhar os trabalhos elaborados por diferentes mãos mostra que o bordado, assim como a escrita, é uma linguagem pessoal.
Tenho certeza que este, primeiro de muitos projetos deste grupo, terá sempre um lugar especial em meu coração...

               ----------------------------------------------------------------

Luciana Bravo

A base é a mesma: um pedaço de tecido, uma agulha e algumas linhas. Mas, então, o que faz com que cada bordado seja uma obra de arte única, impossível de ser repetida ainda que pelas mesmas mãos criadoras? Em caso de dúvida, faça o teste: dê um mesmo tema ou modelo para duas, cinco, dez, cem bordadeiras. Com certeza o resultado será igual número de diferentes trabalhos. Isso porque cada escolha, cada ponto, cada tipo e cor de linha, cada pano de fundo farão dessa obra uma peça única. É exatamente isso que me encanta e me move: o bordado é fruto da criatividade, da capacidade, delicadeza, perseverança e muita inspiração da bordadeira.
Muito mais do que surpreender os que me conhecem, ter me tornado uma bordadeira ainda me espanta. Ser capaz de tecertodas as texturas, cores, sombras, volumes, perspectivas e profundidade que dão vida a um produto da minha imaginação... isso é algo mágico. Sim, requer técnica, mas, acima de tudo, é um ato de amor.
Participar da exposição Bordando os Sete e, mais ainda, fazer parte da Ciranda Bordadeira – este grupo de mulheres tão sensíveis, capazes, criativas e criadoras – é uma verdadeira honra. Vocês me permitiram ter a ousadia de me ver como uma bordadeira e, por que não, como uma artista.
Que venham os próximos trabalhos e desafios. Já estou de agulha em punho!

           ----------------------------------------------------------------
                                                               
                                                                                                        Mieko Makino                                                                                                                                                                                  
Quando comecei a bordar para a exposição Bordando os Sete fiquei muito feliz, mas ao mesmo tempo preocupada, pois a responsabilidade seria grande. Nunca havia feito nada parecido!
Escolhi o Militão dos Santos por ser um pintor brasileiro e por admirar sua obra já há algum tempo. Seu estilo cheio de detalhes, colorido e seus temas são muito familiares, lembram minha infância. Durante o processo, nas aulas, trocávamos idéias, elogios, pontos e, principalmente, risadas. Foi tão gostoso e prazeroso que eu não queria mais que terminasse. A cada olhar, me parecia sempre faltar mais alguma coisa.
Acredito que essa troca, essa ciranda é que fez com que os bordados, sem exceção, ficassem tão maravilhosos.
No dia da exposição quando terminamos de colocar todos os trabalhos na parede, foi uma grande emoção vê-los juntos, no mesmo espaço! Senti um orgulho enorme não apenas pelo meu trabalho, mas pelo conjunto, pela beleza e pela força emanada de sua presença num mesmo lugar. Aí percebi o quanto é poderosa essa Ciranda Bordadeira.
Parabéns a todas nós!
       ----------------------------------------------------------------                                                                                                                                  Olinda Evangelista
         
          Embora eu não conhecesse todas as mulheres que participariam da Exposição Bordando os Sete, que ocorreu no Flores na Varanda, em SP, em março e abril de 2012, eu intuía que bordar a quarenta mãos seria uma experiência fundamental em minha vida de bordadeira.
O bordado sempre me amedronta quando começo a pensá-lo... Nesse caso, o temor foi maior, pois escolhi um cartaz de Djanira, de 1956, pintado para a peça teatral Orfeu da Conceição de Vinicius de Moraes e Tom Jobim. A escolha juntou duas facetas de meu trabalho – bordado e poesia– e deveu-se a dois fatos: Djanira morara em Santa Catarina, estado em que resido; o filme A música segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim, de 2011, mostrava o cartaz para Orfeu da Conceição. Comprei livros sobre ela e também o texto da peça. Fui aos poucos me apropriando dos dois universos – o da pintora e o da peça.
            Demorei a encontrar o “ponto certo” do bordado... O cartaz retratava dois amantes abraçados a um violão em uma noite enluarada. Recolhi muitos panos até me decidir por aquele que serviria de noite. Comecei a bordar em brim e desisti. Nem o tecido, nem a poesia que ficaria no fundo do bordado, me agradavam. Escolhi novo tecido, cetim azulão, e nova poesia – um trecho da peça de Vinicius. O bordado, agora sim, florescia embalado pela trilha sonora do filme Orfeu Negro, de 1959.
            Não raras vezes temi pelo resultado de meu trabalho, especialmente porque diferia, na técnica, dos bordados que comporiam a exposição. Entretanto, minha intuição estava certa! Vi que bordar a quarenta mãos foi possível. O que nos uniu, as vinte bordadeiras, não foi a escolha dos pintores, não foi a capacidade técnica, não foi a maestria na execução dos  pontos. Penso que o que nos uniu foram as linhas, as agulhas, as tesouras, os panos e o amor pelo bordado. Penso, ainda, que quem nos conduziu para esse grande processo de criação e conhecimento foi a Jaci, a quem devo profunda gratidão. 

    ----------------------------------------------------------------

Rosângela Barbosa
Bordar é um poetar com linhas, tecer pensamentos. Bordo porque busco a poesia que há na vida. Bordo porque busco a poesia que há na minha alma.
E porque não poetar com linhas? Poesia de cores.
A viagem da agulha que trilha no seu rítmico traspassar é a viagem dos meus pensamentos e ali, no pano, tecidos ficam os seus rastros.
Para sempre, ali, um pouco da minha alma.
Nesse lugar onde posso ser criança, bailarina, cigana, flor, bicho, nuvem, rastro de cometa, posso ser futuro e posso ser lembrança, posso o que quiser.
É um mergulho no mar.
É como brincadeira de criança, só que quem brinca é a mulher.
E quando mulheres se encontram para bordar são como meninas brincando na praia, corremos todas juntas para o mergulho, cada uma irá buscar seu tesouro e trará à superfície.
Esse tesouro é a poesia, feita de linhas, cores e principalmente da beleza que carregam na alma.
Isso resume, para mim, o que está sendo esse cirandar.
Um privilégio de dividir os tesouros guardados na alma dessas maravilhosas mulheres, tão diferentes entre si, mas que carregam essa beleza em comum.
                       
                      ----------------------------------------------------------------

Suely Galli Soares


O ato criativo pressupõe a socialização da experiência para que atinja outros horizontes e sujeitos; para que não adormeça solitário em gavetas, álbuns, armários; para que denuncie anunciando possibilidades de encontro, de comunicação e produção de conteúdos e de conhecimento por meio do experimento intencional e direcionado, alimentando a inquietação criadora que move o artista. Ocupado em suas tardes e noites no fazer artístico, ele realiza o trabalho que nutre a própria alma e sensibiliza pela poesia que, no outro, sua obra inspira.
O bordar aliado à arte em tecido é ampliado com a pintura aquarela e outras inserções de materiais, abrindo espaços para novas leituras e interpretações do belo. É o caso dessa experiência que reuniu, apesar das distâncias geográficas, pessoas de diversos lugares, unidas pelo objetivo desafiador de retratar ícones contemporâneos ou clássicos da pintura, utilizando linha, agulha, tecido e tinta, numa ousadia criativa e fiel ao pintor (a) e obra escolhidos. Idéia inovadora a ciranda das bordadeiras marca, com pontos, cores e representações, um empreendimento artístico cultural com perspectivas promissoras.
A sociedade atual em seus ritmos acelerados e intensos requer cada vez mais, momentos compatíveis ao nosso sistema biológico e psicológico, respeitando o indivíduo e a diversidade cultural. A arte em tecido, sobretudo o bordado, tem respondido a essa necessidade, seja para quem cria, seja para quem é socializada a criação... Aparece num novo contexto histórico, mas elas, as bordadeiras internautas, não são diferentes daquelas que iniciaram essa cultura, possuem a mesma sensibilidade e desejo de criar transformando, a cada ponto, laçada e nó, a arquitetura da paisagem, desenho, do ato em si de bordar!
Gudiol foi minha escolhida por inspirar-me a leveza dos personagens, melancólicos, cheios de vazios, em que a mulher, na maioria das cenas, é protagonista da mensagem aberta às interpretações. Em nossa leitura bordada e aquarelada criamos o cenário para o nu que dispensa elementos, por estar carregado de sentimentos! Intitulei meu trabalho de Meu silêncio, meu umbigo por remeter-me ao nosso próprio encontro pela entrada do ventre, rumo ao pensamento!

                    ----------------------------------------------------------------

Suiang Guerreiro

Quando comento com algumas pessoas que eu bordo, às vezes sinto uma condenação velada no ar: “Que coisa mais antiga!”, que me soa como “coisa de velho”. Realmente, bordar é uma arte muito antiga, mas que ganhou ares de modernidade na proposta de bordado livre da Jaci.
Junto com a felicidade de bordar Militão, está a delícia de trabalhar em grupo – um grupo de mulheres de várias idades, de diferentes profissões, mas com um entusiasmo juvenil na realização de um trabalho artístico inusitado. Transformar obras de grandes mestres da pintura em inúmeros pontos é coisa que exige audácia e uma boa dose de disposição. Sinto que o grupo tem uma energia muito forte, sempre disposto a grandes desafios. E que venham muitos outros!
                 ----------------------------------------------------------------

Talita Ribeiro


Ser convidada para participar do projeto Bordando os Sete reacendeu uma chama que estava já fragilzinha, sem força para seguir em frente sozinha: a do falar pelas mãos, com agulha e linhas. Fazer parte de um grupo, ser chamada de bordadeira, escolher um(a) pintor(a), uma obra... tudo isso foi muito estimulante!
Escolhi a Anita Malfatti porque quis prestar uma homenagem à tia Lilia, amiga querida e sobrinha da Anita, que já está com 90 anos! Fui pesquisar sobre sua vida, viajei com ela para a Europa e os Estados Unidos. Sofri com seu sentimento de rejeição, exclusão e solidão. E fui parar no Maine, onde ela pintou “Paisagem Amarela” que, por razões óbvias, eu chamei de “Solitude”.
Cada ponto era conversado com a Anita, pedia a sua aprovação. Não queria desrespeitá-la num trabalho que, até então, era só dela. Hoje é meu também.
Gostei muito de ser uma das 20, de conhecer pessoalmente várias delas e virtualmente algumas. Tenho um carinho especial pela Jaci;  que, cheia de vigor, vai atrás das novidades, tem ideias mirabolantes e dá até o sangue pra que elas se viabilizem.
Minha paisagem foi solitude, que é a escolha de ficar sozinha. Mas nunca fui solitária, pois a Ciranda vai rodando e apresentando uma colega aqui, outra ali, e acabamos sempre muito bem acompanhadas.
                   
                     ----------------------------------------------------------------

Vera Simonetti                                                                                                                      


Participar da exposição Bordando os Sete com uma interpretação de obra da Montserrat Gudiol teve um significado importante para mim.
Ainda em tratamento contra um câncer de mama, levei certo tempo para me decidir por esse corpo nu, branco, sem cicatrizes, contra um fundo verde com algumas variações de tom, melancólico.
Numa fase onde a recuperação dos meus cabelos expressava também uma mudança de outros aspectos de minha vida, o turbante vermelho, então, fez a diferença, foi decisivo na minha escolha. Ali eu podia inventar à vontade com rendas, diferentes tons vermelhos, linhas e pontos variados. E quebrar a “monotonia” do vermelho com um lilás/azul se intrometendo, também, nas três cores da pintura original: o branco, o verde e o vermelho.
Amo árvores, flores, plantas. A fantasia continuou quando o fundo verde aceitou uma árvore florida e um canteiro de flores ainda em construção...
Fantasia é o nome do meu bordado.

              ----------------------------------------------------------------

Vilma Simas

Eu já havia começado a bordar uma das obras de Matisse, por pura curiosidade, quando a Jaci me falou da sua vontade de montar uma exposição com sete pintores importantes. Adorei a idéia. Mesmo estando em outra cidade, longe de São Paulo, achei que seria uma excelente oportunidade de participar de um trabalho sério. Será que vou conseguir bordar a altura?
A primeira coisa que resolvi fazer foi conhecer um pouco mais meu mestre (será que posso chamá-lo assim?). Depois só me restou seguir em frente. Passei várias tardes quentes, sozinha em Belmonte, na Bahia, envolvida pelo silêncio lá de casa, pelas cores e fios. Me sentia a própria Penélope! O tempo passou diferente. A natureza passou a ser meu relógio. O pôr-do-sol, que acontece do outro lado do rio, e a volta para a ilha, aonde dormem, dos imensos bandos de garças é que me indicavam que era hora de parar. Parar não apenas pela luz que ia embora, mas porque eu não podia perder este espetáculo. Os movimentos e as cores se embaralhavam numa incrível harmonia que mais parecia uma dança. Eu tentava não perder nada e buscava assimilar a organização das cores!! É uma preocupação para mim fazer com que elas correspondam às minhas emoções. Quantas vezes achei pequena e pobre a gama de cores da DMC! Eu precisava de mais!
Paralelamente a tudo isto, a Mulher Russa (nome que dei ao meu trabalho) foi ganhando vida no meu pedaço de tecido. Nós foram feitos e desfeitos. Eu não sabia o que era preguiça. Cores eram trocadas. O chão ficou cheio de agulhas perdidas e de pequenos pedaços de linha.
De repente me dou conta que chega! Ela está pronta! Que pena.
----------------------------------------------------------------


Mestre Militão, em suas próprias palavras...
     

Pintor, eu sou um pintor, repito isso o tempo todo, para que esta certeza não se perca na contínua profusão das informações que chegam à minha mente. É um emaranhado de coisas que muitas vezes demoro assimilá-las, mas gosto do modo despreocupado e silencioso, sem pressa, com que desenvolvo e curto meu trabalho, cada imagem, cada sentimento colocados na tela, o cheiro forte da terebintina, enfim, tudo isso me transporta para dentro de mim.
E de repente percebo que o tempo passa depressa demais, não sei se quero acompanhá-lo.
As notícias são rápidas, quando consigo digeri-las, elas já perderam a importância, ou caíram no esquecimento. Penso, será que a arte caminha na mesma direção? São tantas coisas novas que surgem, tantas ferramentas tanta modernidade, a digitalização, o giclée, a promessa de que uma obra pode ser eternizada através da tecnologia, e eu fico assustado com tudo isso, como alcançar a tempo todas estas novidades?
Pergunto-me: será que os meus pincéis, os panos sujos, a delícia do cheiro forte da tinta em minhas narinas, as mãos borradas de cores diversas, a desordem por todo lado, o prazer no ato de fazer nascer uma obra, será que tudo isso em breve fará parte do passado?
Vejo os jovens que chegam cheios de idéias maravilhosas, ilustrações perfeitas, e nenhum pincel... Nenhuma espátula, nenhuma mão suja de carvão.
Sinto melancolia nestes momentos, e assim, as coisas vão chegando hoje a uma velocidade muito maior que chegaram às nossas avós, e também não conseguimos acompanhar.
Quando era criança, e rabiscava as paredes e papeis de embrulhos, minha irmã me deu material artísticos porque percebeu que ali poderia haver algum talento escondido...
Vi meus filhos crescerem sem riscar as paredes, apenas grudados nos vídeo games, mini games e coisas do tipo... Acho que meus netos nem vão saber o que é papel, lápis de cera, massinha de modelar, todas aquelas “ferramentas” que na época me despertaram para o mundo da imaginação e criatividade.
Hoje as “ferramentas” são outras, a maneira de criar é diferente, e são boas, apenas não tem mais o romantismo do velho atelier, onde os artistas faziam nascerem maravilhas, apenas com sua imaginação, óleo de linhaça e algumas bisnagas de tinta, não existia a preocupação de estar ligado a um nobrake por medo de perder horas de trabalho e sono.
E assim caminhando entre os versos e pincéis, éramos todos poetas e plenos, porque o ato de criar fazia com que todos os nossos sentimentos aflorassem.
Eram músicos, compositores, poetas, boêmios e contestadores, hoje são peritos em ferramentas tecnológicas... E o romântico idealismo se foi, permanece vivo apenas em nossa memória, e nos vestígios que ainda hoje guardamos daquele velho avental sujo de tinta.

Comentários

Postagens mais visitadas