domingo, 19 de agosto de 2012

Superação



 Agostinha recebeu o convite para participar, junto com o grupo Ciranda Bordadeira, do 2º Quilt & Craft Show com o tema Felicidade, em meio a um processo de luto.  Num esforço, procurou em sua memória uma imagem que pudesse traduzir esse sentimento e, dentre seus guardados, encontrou uma fotografia da entrada de sua chácara, recanto no qual desfrutou, com a família, de momentos verdadeiramente felizes.
Apesar do tempo exíguo e da situação adversa, se empenhou para transpor para o tecido as cores e texturas daquele espaço, talvez até como uma forma de se organizar internamente e alimentar a alma com registros afetivos significativos.
Nem tudo foi felicidade, porém. Neste ínterim, sobreveio mais uma doença em família. A necessidade de se dedicar ao cuidado deste ente querido demandou tanto que não sobrava tempo nem disponibilidade para prosseguir no trabalho. A angústia decorrente da necessidade de honrar o compromisso assumido e a absoluta incapacidade de mantê-lo paralisou-a durante dias. Foi quando, num telefonema entre nós, se reproduziu a experiência descrita por Clarice Lispector em um de seus contos intitulado Uma experiência no qual, em um trecho, ela diz:  “Talvez seja uma das experiências humanas e animais mais importantes. A de pedir socorro e, por pura bondade e compreensão do outro, o socorro ser dado. Talvez valha a pena ter nascido para que um dia mudamente se implore e mudamente se receba. Eu já pedi socorro. E não me foi negado”.  
Imbuída desta percepção, assumi o projeto e rematei os fios desta felicidade momentaneamente turvada pela tristeza. O que era um trabalho individual passou a ser criação conjunta. Vê-la assim, emoldurada, suavizou a dor de mais uma perda. E ao testemunhar a emoção de Agostinha, esta felicidade se tornou minha também.

Jaci Ferreira sobre o trabalho de Agostinha Hashimoto
São Paulo – SP

Agostinha Hashimoto

2 comentários:

  1. Fiquei muito emocionada com este relato, com a amizade e a compaixão que fez com que o trabalho fosse realizado,trazendo assim um bálsamo par a alma de Agostinha. É disso que a vida é feita, alegrias e tristezas. Nestes momentos que vemos como é bom ter amigos, e como apesar da dor vale muito viver. Gilberto Gil retrata este momento de Agostinha assim: ""O zigue zagui do tormento, as cores da alegria, a curva generosa da compreensão""
    Parabéns a este projeto.
    Beijos
    Sandra Barreiro.

    ResponderExcluir
  2. Jaci, eu também me emocionei com essa parceria criada pelo "destino", e mais ainda por eu saber que você também viveu um luto nesse tempo. E é disso que o meu texto fala - viver a vida como ela se apresenta no momento.

    Beijos pra vocês duas!

    ResponderExcluir